COMO A ÁGUA
Quando eu, feito criança assustada
Escondo-me de você,
de suas perguntas diretas
É somente para ver se preservo submersos
Meus medos mais sombrios,
minhas portas mais secretas
Mas não adianta, pois pouco a pouco
Como a água...
Você me invade,...
eu fechando, você a destrancar.
E como sou covarde,
recuo novamente
Não a deixo perceber que é inútil meu machismo
Senão saberá que, longe dos olhares:
um homem também chora
E em minha fragilidade,
até me encolho no sofá
E também que, ansioso,
tento adiantar a hora em que
Como a água...
Nossos rios possam finalmente se cruzar.
Tenho receio...
ah como eu tenho receio
De que exposto na rua,...
nu, no meio ali parado
Possa eu demonstrar minhas mais imensas fraquezas
Justamente aquelas que você teima em derrotar
Para enfim, quando já totalmente fortalecidoComo a água...
Eu me veja novamente com lágrimas no olhar.
Então peço: olhe-me dentro, bem no fundo
Verá que aqui há uma humana dualidade
Verá que aqui há um vasto e imenso mundo
Um homem que ao mesmo tempo é fraco e forte
Um homem que por vezes já perdeu seu norte
Como a água...
Que percorre mil caminhos tortuosos na sua rota até o mar.
Mas, caso ainda assim queira provar o meu amor
Saiba que, estando eu ciente de que você gosta de flores
Vou encher de cores suas internas paisagens
Para, como um dia em Brasília fizera Burle Marx
No seu coração, cuidar e semear todos os jardins
Com risos, beijos, carinhos, poesias,... para que
Como a água...
Lavem e levem suas mágoas, quantas vezes precisar
(André L. Soares – 01.05.05 – V. Velha/ES).
